[Tópico de discussão] Onde estão as nossas Mulheres?
Published by Equipa de Coordenação Novembro 23rd, 2007 in UncategorizedOs meus parabéns pela iniciativa.
Gostaria simplesmente de referenciar, a meu ver, uma lacuna de extrema importância na valorização deste simpósio, quer no aspecto do relato presencial, quer no aspecto da valorização do real contributo dado pelas mulheres guineenses e cabo-verdianas (sim, cabo-verdianas também, ainda que em número reduzido), durante o percurso da luta de libertação nacional em geral e, também, no caso particular de Guiledje.
Onde estão as nossas MULHERES?
Onde estão as guerrilheiras mães, cozinheiras, enfermeiras, companheiras e amigas de toda a hora?
Onde está a intelectualidade feminina guineense ou de outras origens, com experiências vividas da nossa luta de libertação?
Penso que, resumidamente, esta pequena nota pode e deve servir para se corrigir esta falha, pois ainda está-se a tempo de dar a mão à palmatória e convidar, que seja apenas uma MULHER, a participar como oradora do simpósio.
Não apenas por uma questão ética, mas acima de tudo, por uma questão de Justiça para com as nossas MULHERES!
E já agora, com tantas intervenções versando os mesmos assuntos, porque não uma abordagem sobre a participação das MULHERES na operação Guiledje?
Muito obrigado.
Comentário recebido de Fernando Casimiro (Didinho), Projecto Guiné-Bissau: CONTRIBUTO (www.didinho.org)
Em jeito de resposta:
Partilhamos a sua preocupação sobre a importância das mulheres na luta de libertação e da sua ausência no Simpósio.
Não que não tenhamos feito um esforço, mas com o tempo aparecerão certamente mais do que a Francisca Quessangue (enfermeira que participou na operação do Assalto a Guiledje) e que irá intervir, como pode ver no programa, no dia 6 de Março às 10h30m.
Daí que o seu apelo “convidar, nem que seja apenas uma MULHER como oradora do simpósio” já tivesse sido resolvido pelos organizadores.
Cumprimentos a todos os promotores..
é com grande prazer e entusiasmo que acabei de receber o vosso email.
Claro que hà historias ainda no fundo do mar para trazer a luz do dia, embora seja tarde de que nunca.
Quanto ao symposio é um luz no fundo do tunel a apresentar o mundo, é mais uma parte da nossa historia que estava quase esquecida, a nossa contribuiçao infelizmente como dizem na nossa linguagem corrente ” Tartaruga misti badja mà rabada ka ten” desejo-vos coragem e que o senhor continuara a conduzir a vossa inteligencia para o bem estar do nosso Povo.
Claudino Pereira
Em primeiro lugar os meus profundos e sinceros sentimentos de gratidão aos que tiveram a audácia de perpetuar a memória de Guiledje. Um facto de extraordinária importância que ficará, sem dúvida, inscrito nos anais da nossa História. Os meus parabens aos insperadores e organizadores do evento.
Porém, é extremamente visível a falta da presença feminina na “fileira” dos Oradores e Testemunhas desse Grande evento hotórico. As nossas valentes combatentes de AK, de Seringas nas mãos e de “potis” de água e cabaças de comida e alimentos na cabeça, não poderiam ajudar a tornar mais presente esse fantástico momento histórico contribuindo cada uma com o seu depoimento? Com certeza, ainda não é tarde para incluir mais mulheres ex-combatentes ou as actuais formadas em vários domínios de saber para que possam dar o seu contribuito a fim tornar mais rico esse acontecimento ímpar nesta nova fase da nossa História bissauguineense de “Libertação Nacional” contra o maior mais temível e actual inimigo do povo da Guiné-Bissau: a pobreza material e a pauperização antropológica do homem guineense.
Mais uma vez, os meus parabens e que a vossa empresa seja abençoada.
P. Francelino
Mantenhas,
Parabéns pela iniciativa e o propósito associado a ela no que concerne à intervenção em Guiledje!
O programa é muito bem planeado e estruturado, tirando a ausência de mulheres enquanto protagonistas na apresentação das comunicações. Personalidades como Dalila Cabrita Mateus (Fac. Letras, Univ Clássica de lx), Ana Farias (CESH, Iscte) e Joacine Moreira (guineense e membro do CEA-ISCTE), podem dar um bom contributo em termos da análise à volta das dinâmicas e processos de colonização e descolonização.
Por outro lado, acho que não deveria haver sobreposição dos oradores e moderadores nas actividades (ou seja, ñ repetí-los) e, nesta base, sugeria que o moderador do painel 2, Leopoldo Amado, seja substituído pelos Jornalistas Óscar Barbosa (Kankan, pioneiro da RDN) ou José Vicente Lopes (autor de Cabo-Verde nos bastidores da independência) ou ainda pelo Fafali Koudawo (autor de Guiné-Bissau e Cabo-Verde: da democracia revolucionária à democracia liberal).
Votos de continuação de boa preparação,
abraços
Concordo plenamente com Didinho, pois fiquei triste ao adentrar o site deparei-me com a tamanha falta da presença feminina no Simpósio, e posteriormente nas mesas de discussões. Entretanto ainda permeia na nossa cultura machista africana o imaginário que o poder de decisões está estritamente vinculada ao masculino. Neste caso é absolutamente “normal” o esquecimento dos organizadores do evento que a mulher também é provido de intelectual idade e que a África precisa dar a maior visibilidade o empoderamento de suas mulheres.
Onde estão as mulheres africanas
Além de serem coadjuvantes nas lutas de libertação na nacional de seus países, atravessaram também o atlântico para reconstruir o novo mundo na diáspora negra, reformulando assim um novo ideal de vida política. Nesta direção, precisamos analisar a fortaleza das mulheres africanas dentro e fora do continente.
É “normal” que, perante a falta de participantes femininos num evento, haja a tendência de se recorrer apressadamente à acusação generalista de cultura machista africana por parte dos organizadores.
Neste caso, não é o caso. A prática efectiva das três organizações promotoras deste Simpósio são disso prova. Repare que, por exemplo a AD, nos seus 16 anos de vida tem tentado promover acções e organizações para “dar voz aos sem voz”, àqueles que são marginalizados “natural” ou ostensivamente, independentemente do sexo ou idade. Curiosamente, cerca de 80% das associações com quem a AD desenvolve acções em conjunto no mundo rural são de mulheres, pela simples razão de que são mais dinâmicas, mais empreendedoras e mais sérias no cumprimento dos seus compromissos, e não pelo facto de serem mulheres. Desta forma elas vão conquistando um maior espaço de intervenção nas sociedades tradicionais, um maior respeito e um maior protagonismo. Gradualmente e em função de uma aceitação, por vezes não totalmente pacífica, por parte da comunidade local, as mudanças vão-se fazendo sem serem por decretadas.
No caso do Simpósio, certamente que foi não só a nossa falta de capacidade para aumentar a presença de mulheres, que nos preocupou e entristeceu. Foi também a falta de muitos homens, condutores, cozinheiros, enfermeiros, artilheiros e comandantes, protagonistas de primeira linha da história de Guiledje que, por razões diversas, consideraram não pertinente a sua presença.
Temos a certeza que este Simpósio irá abrir as portas para que mais combatentes, mulheres e homens, sintam a coragem e o dever de partilhar com esta geração e as futuras, toda a riqueza da sua experiência e exemplo.