Comunicação Comunitária

 

1. AS RÁDIOS COMUNITÁRIAS

Encontro das Rádios Comunitárias em Buba (2004)

Quando em Fevereiro de 1994 a AD lançou a primeira Rádio Comunitária, a Rádio Voz de Quelélé, ninguém acreditava que, 10 anos depois, haveria 15 novas Rádios a cobrirem todas as regiões do país, com excepção de Biombo.

Aquilo que, na altura, foi considerado como um desafio político ao poder monocórdico de então, traduziu-se num instrumento importante da comunicação local e rural, a voz das preocupações e interesses das comunidades marginalizadas, a possibilidade de resgate dos valores culturais étnicos em particular das minorias, a transmissão de informações inter-comunidades, num país onde a rede de comunicações telefónicas era praticamente inexistente, a prestadora de um serviço público nas áreas da saúde, agricultura e educação, assim como no do empoderamento das organizações associativas e representativas locais.

Se no início da sua criação, as 4 rádios comunitárias da AD, Voz de Quelélé, Kasumai, Lamparam e EVA-Suzana, eram claramente um instrumento controlado e gerido pela AD, o processo foi gradualmente envolvendo um numero cada vez maior de jovens de ambos os sexos das comunidades onde elas estavam inseridas, capacitando-os técnica e conceptualmente, aproximando-as dos interesses das comunidades utilizando métodos em que os diferentes grupos sociais (homens grandes, adultos, mulheres, jovens e crianças) e profissionais (agricultores, pescadores, horticultoras, bideiras, professores, etc.) se foram apropriando informalmente destas Rádios, participando directamente na concepção e realização de programas e influenciando de forma marcante a grelha de programação.

Provavelmente, residirão aqui alguns dos elementos mais importantes para o sucesso que as Rádios Comunitárias (as da AD e as outras) desfrutam hoje na Guiné-Bissau:

  • tratou-se de um processo de apropriação gradual por parte das comunidades locais e não de entrega intempestiva “chave na mão”, depois de um período em que o promotor geriu e pagou as despesas e no fim disse: “agora são vocês a aguentar!” ;
  • não houve à partida uma calendarização do processo, mas antes a preocupação de acompanhar a dinâmica temporal de envolvimento da comunidade, segundo o seu próprio ritmo e estimulando aqui e ali com incentivos de capacitação e de sugestão de inovações ;
  • em vez de ser um local onde outros falavam para a comunidade, estas Rádios assumiram-se desde o início como tribunas onde era a comunidade que se exprimia e falava de si e para os outros conquistando um sentimento de pertença em relação à Rádio ;
  • sem dúvida que o resgate dos valores culturais e da história de cada uma das etnias conquistou o coração dos homens grandes e fez do programa da Rádio Kasumai “Bedjas na Manti” uma referência nacional para todas as outras rádios ;
  • as campanhas práticas de educação sanitária, o combate às grandes epidemias como a cólera e os programas agrícolas representam uma fonte de informações úteis que é muito valorizada pelos diferentes grupos sociais e profissionais ;

Encontro das Rádios Comunitárias em Djalicu (2003)

O ano de 2003 foi provavelmente um dos mais importantes para as Rádios Comunitárias, tanto a nível de organização, através da consolidação da RENARC (Rede Nacional das Rádios Comunitárias da Guiné-Bissau) que passou a coordenar e dinamizar as actividades de formação e concertação, como de reflexão através do 7º Encontro das Rádios Comunitárias realizado em Djalicunda, como da capacitação de quadros com a realização de vários cursos de formação (programas agrícolas, audiometria e técnicas de programação) e visitas de estudo ao Mali, Senegal e Brasil, assim como de aproximação com as Rádios Comunitárias dos outros PALOP, em Junho de 2002 em Cabo Verde, onde se esboçou o início de uma cooperação formalizada.

De salientar especialmente a formação de 5 jovens radialistas das Rádios da RENARC, em técnicas de instalação de emissores e antenas, manutenção de equipamento e pequenas reparações do material corrente. Este facto veio ajudar a resolver um grave problema que se verificava anteriormente e que levava a que as avarias das Rádios se prolongassem por vários meses, com a consequente interrupção das suas emissões. A colaboração com o técnico maliano Aziz que vem assegurando a capacitação e especialização destes 5 jovens é uma garantia de qualidade e de certeza de que no futuro haverá técnicos perfeitamente à altura para a manutenção destas Rádios.

Técnica da Rádio Kasumai

Em Julho de 2002 foi inaugurada mais uma Rádio Comunitária da AD, a Rádio Escolar EVA de Suzana. Embora com um raio de alcance de menos de 10 Km, é uma rádio feita principalmente por alunos e professores, com a colaboração dos pais e homens grande das 15 tabancas que beneficiam do funcionamento da Escola de Verificação Ambiental de Suzana, tendo por objectivo ajudar a integrar mais a Escola no seio da população fazendo com que esta preste serviços à comunidade e seja percebida por ela como um instrumento do seu próprio desenvolvimento.

Esta Rádio pretende envolver os alunos na concepção e realização de programas, em particular na feitura de noticiários, na produção de programas ambientais, na elaboração de entrevistas e na apresentação de programas recreativos, como forma de os incentivar à criatividade, ao desenvolvimento das suas potencialidades inatas, à facilidade de comunicação, à estruturação dos seus discursos, à capacidade de síntese e à formulação lógica de questões.

Pela primeira vez se introduziu um sistema de energia solar como fonte de alimentação numa Rádio instalada pela AD. Esta inovação está ainda por dar as suas provas. Se em termos de capacidade de emissão tudo corre pelo melhor, já a duração dos períodos de emissão diária, 2 horas, é muito reduzida, fruto de uma deficiente técnica de instalação e material pouco adaptado, em especial os cabos eléctricos.

Esta constatação levou a AD a priorizar a formação de dois técnicos em instalação de sistemas solares, sobretudo se tivermos em conta que já existem outras 3 Rádios a recorrer a esta forma de energia e que a tendência é para o seu aumento, assim como se considerarmos que o acesso a energia eléctrica convencional é cada vez mais difícil.

O envolvimento gradual de jovens de ambos os sexos nestas rádios, a sua capacitação técnica e conceptual, a gestão e direcção das mesmas foram os elementos determinantes para o seu sucesso.

Curso de formação de radialistas sobre a produção de programas agrs nas rádios comunitárias

A colaboração com organizações especializadas como o Instituto PANOS em Dakar, a Rede das Rádios Rurais dos Países em Desenvolvimento e a UNIRR do Brasil traduziram-se por resultados excelentes para o conjunto das Rádios guineneses, tanto em capacitação, como na obtenção de documentos com programas sobre desenvolvimento rural e de material radiofónico (CD e K7 com programas e efeitos especiais).

A grande desilusão continua a ser a AMARC, tão divorciada e desinteressada das rádios comunitárias guineenses, como prestimosa servidora da Rádio Oficial, promovendo no exterior cursos de formação só para os seus quadros, passando completamente ao lado das rádios locais. Infelizmente a secção africana da AMARC trabalha com base na promoção individual dos seus membros e privilegiando o amiguismo como critério de selecção dos beneficiários das capacitações que organiza.

Daí que a AD esteja plenamente convencida que se deva continuar a privilegiar a colaboração com a UNIRR do Brasil, inclusive para o projecto maior da rede das rádios comunitárias dos PALOP.

2. AS TELEVISÕES COMUNITÁRIAS

O sucesso e impacto das rádios comunitárias levou a AD, em Novembro de 2001, a lançar a primeira Televisão Comunitária, a TVKlélé, como outro meio de comunicação e animação comunitária.

Constituída à volta de uma dezena de jovens do bairro de Quelélé, esta TV gravava emissões de cerca de 45 minutos, contendo noticiários, informações úteis e programas temáticos (lixo, cólera, centro de próteses, etc.) que eram passados 2 vezes por mês no interior do bairro de Quelélé, através de um monitor de televisão alimentado por um pequeno gerador portátil.

Se bem que motivando o interesse dos moradores, constatou-se que o simples facto das imagens surgirem num écran de televisão os incita, mesmo de forma inconsciente, a assumirem uma postura de meros espectadores, em vez de participantes activos nos debates que se pretende levar a cabo com esta forma de televisão. Acresce que a falta de uma aparelhagem de amplificação de som, contribuía para que as intervenções individuais fossem ouvidas por um número reduzido de pessoas, desmotivando os que se encontravam mais afastados.

A visita ao Brasil permitiu encontrar saídas para estas questões essenciais de animação comunitária, as quais passaram pela introdução de um grande écran de cerca de 4 metros de comprimento, a instalação de altifalantes laterais, um videoprojector e, sobretudo, a introdução de uma câmara aberta para cobrir, em directo, as intervenções dos participantes nos debates que se seguem à apresentação do programa principal.

Este, em vez de ser de longa duração, passou a ser de cerca de 20 minutos e a centrar-se à volta de um tema de actualidade que se pretenda promover.

Outra iniciativa em curso é a criação da TV Bagunda, no sector de S.Domingos, cujo primeiro programa está previsto ir para o ar no dia 30 de Outubro de 2004.

O leque destes programas temáticos irá abranger temas culturais (teatro, danças e músicas tradicionais), saúde (cólera, paludismo e sida), agricultura (técnicas culturais e de transformação de produtos), nutrição (segurança e diversificação alimentar), ambiente (ecoturismo e biodiversidade), habitat (higiene e lixo), etc..

Até ao início da sua primeira emissão, a prioridade foi dada à formação técnica e conceptual dos jovens que serão associados a esta inovação em termos de animação comunitária.

Considerando que a zona a cobrir por esta TV é bastante grande (raio de 50 Km), está-se a estudar a possibilidade de instalação de um pequeno emissor que cubra as tabancas mais encravadas do sector.

3. CONTACTOS

  • Carlos Schwarz (ad@mail.gtelecom.gw)
  • Ladislau Robalo (lalau26@hotmail.com)
  • Adão Nhaga (caixa postal 606, Bissau, Guiné-Bissau)

Para mais informações ver o documento:

  • “Repertório das Rádios Comunitárias da Guiné-Bissau, 2003” – AD/NOVIB