Escolas Populares

 

A AD e as Escolas Populares do Bairro de Quelélé

A actual situação degradante do sistema de ensino oficial tem origem em antigas políticas irrealistas do pós-independência, baseadas numa interpretação muito populista do conceito de democratização do ensino e que apenas serviu para multiplicar o número de escolas primárias por todo o país, sem que a qualidade do ensino fosse salvaguardada, ao ritmo das conveniências políticas locais e não baseadas numa estratégia pensada em termos de desenvolvimento nacional.

Hoje, as escolas oficiais não têm as mínimas condições físicas de funcionamento, a larga maioria dos professores foi entregue a si própria, sem reciclagem nem capacitação permanente e o nível de conhecimento dos alunos é menos que mau.

As dificuldades financeiras do Estado completam o ramalhete, contribuindo para sucessivas greves de professores, reduzido número de aulas durante o ano escolar e interrupções frequentes.

É neste contexto que, há cerca de 10 anos, começam a surgir as primeiras escolas populares de bairro, como resposta da comunidade à dificuldade em mandar os seus filhos à escola, normalmente protagonizadas por jovens sem qualificação pedagógica ou então professores que decidem abandonar o ensino oficial e estabelecer-se por conta própria.

Rapidamente o número destas escolas cresce, respondendo a uma cada vez maior procura dos pais em pôr os seus filhos a estudar em escolas que funcionem o ano inteiro, com disciplina e cumprimento dos programas e em que a qualidade de ensino seja melhor, mesmo se eles tivessem de pagar mensalidades pela frequência dos seus filhos.

Se em 1995, havia apenas uma escola popular no bairro de Quelele com 11 alunos, já em 2004 esse número passou a 16 escolas e cerca de 3.500 alunos, o que evidencia a dinâmica e interesse deste processo.

A AD tem apostado de forma muito engajada no apoio a sistemas de ensino educativo de base comunitária que representam uma alteração, por vezes radical, ao ensino público oficial. É o caso das Escolas Populares de Quelélé, que estão cada vez a ter mais impacto e a ganhar importância nos bairros das cidades e nas tabancas, começando a implantar-se de forma muito rápida um pouco por todo o país.

A participação da AD neste programa, baseia-se fundamentalmente nos seguintes objectivos:

  • Contribuir para a melhoria da qualidade do ensino nestas escolinhas, através de um apoio pontual a melhores instalações escolares e a uma formação e superação dos professores nos domínios pedagógicos, gestão de escolas, programação de aulas e calendarização de matérias ao longo do ano;
  • Criação de um centro de recursos que permita a cada escolinha aceder à utilização e produção de material didático (jogos educativos, livros escolares, manuais, computadores) que permita aos alunos uma maior abertura para o mundo e um maior interesse no que aprende;
  • Prestação de serviços da escolinha à comunidade, através da criação de círculos de alfabetização para os pais dos alunos, especialmente as mães mais jovens, e a promoção de medidas de higiene doméstica e familiar;
  • Fomento de actividades para-escolares que desenvolvam o espírito criativo das crianças e jovens e o seu sentimento de auto-estima, em particular pelo resgate da diversidade cultural étnica, através da musica, desporto, desenho, pintura, produção de livros sobre aspectos da vida do bairro.

1. Forum das Escolas Populares de Quelele

Depois de um longo processo de reflexão envolvendo todos os promotores das escolinhas, foram elaborados os estatutos e procedida à legalização do Forum das Escolas Populares do Bairro de Quelele. Isto traduziu-se numa melhoria da coordenação das iniciativas inter-escolinhas, na troca de experiências de ensino e métodos de organização das escolas, numa melhor utilização e valorização do Centro de Animação Infantil (CAI), na realização de programas radiofónicos infantis na Rádio Voz de Quelele e na criação de um grupo teatral infantil.

Todavia, ainda se registam muitas lacunas no funcionamento associativo do Forum, fruto de um interesse desigual dos promotores destas escolas, uma vez que existem aqueles para quem o ensino é uma opção exclusiva de vida e outros para quem a escola é uma das várias opções profissionais.

As consequências traduzem-se numa desigual partilha de responsabilidades, na tendência para alguma centralização e protagonismo dos elementos mais activos, com a consequente marginalização involuntária dos restantes.

De salientar que a seriedade e capacidade de trabalho do Forum, acabou também por se traduzir no reconhecimento por parte do Ministério da Educação Nacional, quando um dos seus anteriores Ministros realizou uma visita às suas instalações, promoveu uma palestra no Dia do Professor e apresentou uma série de propostas de colaboração com o Forum.

Em colaboração com a Escola de Artes e Ofícios de Quelele, o Fórum realizou uma série de cursos de formação e reciclagem destinados aos professpores destas escolas:

  • Cursos de planeamento e estatística, onde se deu especial atenção ao cálculo de percentagens e à elaboração de gráficos, tendo-se traduzido numa melhoria substancial da elaboração de quadros e mapas estatísticos referentes a cada uma das escolas, com dados mais fiáveis;
  • Cursos de iniciação à informática para aprendizagem do tratamento de texto, elaboração de gráficos, quadros e cronogramas, assim como na introdução à folha de cálculo;
  • Cursos de ensino do português de longa duração (9 meses)
  • Cursos sobre metodologia de ensino do português, matemática, expressão e educação física

O impacto destes cursos é notório, constatando-se uma muito maior auto-confiança dos professores e predisposição para apresentar publicamente as suas lagunas pedagógicas a fim de serem superadas.

2. Centro de Animação Infantil

Em Novembro de 2000, foi criado o Centro de Animação Infantil (CAI), concebido enquanto centro de recursos educativos para as escolas populares do bairro de Quelelé, tendo como objectivos:

  • Suprir a ausência de materiais didácticos nas escolas populares,
  • Tornar o ensino mais agradável e significativo
  • Produzir materiais didácticos para as escolas
  • Formar professores
  • Criar uma Biblioteca para alunos e professores

O CAI insere-se num Programa de Apoio às Escolas Populares (E.P.) cujos objectivos principais são o aumento da taxa de escolarização no bairro e o incremento da sua qualidade, actuando em 3 vertentes:

  • Melhoria das suas instalações
  • Formação de professores no CAI
  • Introdução e utilização de material didáctico e produção de novo

As actividades do CAI têm-se centrado:

  • Complemento educativo às actividades lectivas nas E.P.
  • Formação de professores das E.P.
  • Actividades culturais (grupos de teatro, dança tradicional e Carnaval)
  • Actividades desportivas (torneios inter-escolas)
  • Programas na Rádio Comunitária de Quelele

Os beneficiários do CAI são:

  • As crianças do Bairro de Quelelé
  • As escolas Populares
  • Comunidade do Bairro
  • Os promotores das E.P.
  • Os Professores

A formação de professores abrange as áreas de:

  • Administração e Gestão Escolar
  • Familiarização com os Programas e Manuais Escolares
  • Planificação de Conteúdos e Planos de Aula
  • Concepção e elaboração de materiais Didácticos
  • Didáctica do Português como Língua segunda
  • Aspectos pedagógicos a reforçar

dando uma especial atenção à formação em novas tecnologias, em particular a utilização de audiovisuais, a introdução à informática (CD Rom educativos e tratamento de texto) e a Internet.

A participação dos professores é elevada e dinâmica, tanto na utilização como na gestão dos recursos do CAI, sendo apoiada por uma equipa de 3 animadores (um para a área do teatro, outro para a recreação e um para a componente pedagógica)

O Equipamento do CAI é constituído por 10 computadores, uma biblioteca com livros escolares e recreativos, material didáctico (jogos e CD Roms educativos de matemática, português e ciências) e um conjunto de mobiliário (quadros, mesas, cadeiras e armários).

3. Alfabetização de Mulheres

Em 2002, duas escolinhas criaram dois círculos de alfabetização para mulheres do bairro, tendo-se constatado que o interesse dominante foi das jovens mães que tinham ido à escola enquanto crianças, mas que precocemente e por condicionalismos de ordem familiar acabaram por abandonar o ensino.

Dos 60 alfabetizandos, 83% são mulheres, cujas actividades profissionais são sobretudo vendedoras de produtos nos mercados, gerentes de restaurantes e bares, costureiras, cabeleireiras ou domésticas.

Pessoas-contacto na AD, para este programa:

  • Isabel Levy Ribeiro ( isabel.levy@gmail.com )
  • Adelino Fernandes da Silva (Caixa Postal 606, Bissau, Guiné-Bissau)
  • Aruna Embaló (Caixa Postal 606, Bissau, Guiné-Bissau)

Para mais informações: ver o documento

  • O Centro de Animação Infantil e as Escolas Populares no Bairro de Quelele – DIAGNÓSTICO DA SITUAÇÃO 1999-2001”, RIBEIRO Isabel, AD, Outubro 2001